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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

canção de amor de sol e rio

É tão divertido escrevê-las, que nem me importo que sejam más. Basta-me a consciência disso. Disfrutem, como de um (mau) filme de série B.

Cai o sol todo paixão,
todo ele fogo e brasa
sobre o rio que se arrasta
e no seu corpo de água,
antes do fim prometido
arderão margens e leito,
arderá o limo e a pedra
e arderá do rio o chão.

Juro que esse rio longo
me olha com alegria
enquanto abrasa de amor.

Eu que o vejo rendido
juro, sei que é amor
que raiva há ou que calor
o rio está apaixonado
e anseia o manto negro
todo de estrelas crivado
nele se abrirá e, calado,
lhe há-de arder o coração.

Juro que esse rio longo
me olha com alegria
enquanto morre de amor.

domingo, 27 de novembro de 2016

esse quotidiano

A nossa canção há-de ser sempre
a de acordar a de adormecer
e entre as duas eu faço a comida
tu pões a mesa tiras a mesa
fazemos filhos criamos filhos
lavo eu a roupa tu fazes as compras
hoje chego tarde tenho reunião
há muito trânsito houve um acidente
não te apresses que um dia
enterramos os pais deixamos ir os filhos
esse dia chega sem darmos por isso
entretanto onde passamos as férias
abre as janelas que está abafado
não que está frio entra chuva e tudo
vê que dia é telefona ao miúdo
toma o comprimido olha o colesterol
amanhã há cinema tu prometeste
anda lá deitar-te não fiques no sofá
chega-te para cá está frio na cama
a nossa canção canta-se sozinha
entre a hora de acordar e a de dormir
nenhum de nós à espera de poesia





sábado, 26 de novembro de 2016

a festa do fim

A celebrar o fim da segunda e última revisão voluntária de O Ano da Dançarina.  Há de ter a obrigatória, depois da editora lhe ter aplicado o crivo. Livro, lá para o Verão.

Se foi este o fim
parece-me bem
com mesa opípara
e velas acesas
palavras cordiais
uma elegia breve
regada a bom tinto
uma tia vestida
de vermelho vivo
música de banda
da festa da aldeia
segue-se o brinde
com duas piadas
pois venham elas
as vezes que forem
que isto de morrer
tem seu quê de alegre


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

não me dá o vento

É dia de rios
muitos rios e afluentes
fios na vidraça
um barco de folha
antes pássaro
detém-se à espera
não sei que tem
que não me abraça
grita o frio
contra a janela
mas falta o vento
nos pulmões
e assim não navego
rio nem mar
nem consigo voar







sábado, 19 de novembro de 2016

Adoração, de Cristina Drios

Resultado de imagem para Adoração cristina driosQuando me apercebi que a Cristina Drios, que conheço pessoalmente e por quem tenho muitíssima simpatia, ia lançar um livro com Caravaggio como personagem central, fiquei de imediato entuasiasmada: afinal, este pintor está, com Vermeer e Hopper, enre os meus favoritos... E acabei de aperceber-me que todos trabalham a luz de forma única e espantosa e de ficar cheia de vontade de estudar a questão e escrever um ensaio, como se ainda fosse aluna de doutoramento do IHA e tivesse tempo para isso! (provavelmente já há algo no género, mas é irrelevante)

Retomemos o tema em questão. 

Leio sempre os livros de pessoas que conheço e com quem simpatizo com muito receio. Temo não gostar e ser forçada a dizê-lo, apontando todas as razões, porque não sou capaz de ser desonesta nisto. Nenhum autor agradeceria uma falsa opinião, mesmo se de um insignificante - que não é crítico de revista, nem tem um blogue com milhares de visitas. No caso de Adoração, aconteceu o mesmo. Peguei-lhe assim que o comprei, entre o entusiasmo e o receio. E vi confirmadas as duas coisas. 

Adianto já: a Cristina escreve muitíssimo bem. Domina a pena, o termo, a linha, cria imagens belíssimas,  e insere a realidade na ficção - o facto na ilusão - de forma admirável, desenhando a história de modo a, uma vez terminada, não se estar certo de onde termina uma e começa a outra. Eu, que tanto admito Caravaggio, adorei saber mais sobre ele, ficar com uma noção, ainda que com o seu natural grau de fantasia, do homem escondido no chiaroscuro. Claro que, como apaixonada de História, também me fascina sempre a inserção na época, e a Cristina foi exímia também nisso, o momento histórico como eu gosto dele - os ambientes, sobretudo, os detalhes - estão lá na perfeição e foi um prazer lê-los. Senti o cheiro das laranjas, o calor siciliano, os suores, fluídos e excreções associados às ruas e ao próprio Caravaggio, a formalidade das relações na nobreza, as contenções e frustrações a que eram forçados, escondidos, como numa composição em chiaroscuro, nos espaços vazios entre as linhas, nas sombras das palavras, no silêncio do que não chega a ser dito. E fico encantada também quando um livro me obriga a ir verificar como é certa obra, para melhor entender certo excerto, ou se uma pintura existiu ou é liberdade criativa. Aconteceu-me imenso, por exemplo, n'A Virgem das Amêndoas, e aqui também. Oh, alegria!

Com tanto de bom, há alguma coisa de que tenha gostado menos? Sim. 

É que li, há tempo, Os Olhos de Tirésias, também da Cristina, passado na Primeira Grande Guerra e que, como Adoração, alterna presente com passado e os interliga e, do meu ponto de vista, o faz melhor. Em Adoração, começamos no presente, com um acontecimento marcante e uma personagem feminina - e outra masculina - que se prometiam importantes, mas que depois estiveram menos presentes e foram menos relevantes do que esperaria. Por vezes esperava um capítulo em que um deles fizesse a ponte entre os acontecimentos do passado e os do presente, mas não surgia e, porque elas foram poucas, o twist final pareceu-me um pouco súbito - faltou-se ali qualquer coisa para a compreensão da história. Claro que nisto a culpa pode ser minha, porque leio quando estou cansada, e claro que o enredo central não o do presente, mas o de Caravaggio, e estas personagens  um pretexto... o que deita por terra, em parte, estas questões, que continuam, porém, a perturbar a minha leitura da obra. 

Nada disto vem em detrimento do bem que a Cristina escreve, claro, e do muito que vale a pena ler este livro. E Os Olhos de Tirésias. Façam o favor de ler também Os Olhos de Tirésias.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

se o dia fosse bom

Isto podia ser sobre o Trump, não é? O tal que fez a Europa acordar de boca aberta e em choque, mesmo que Hillary Clinton também não fosse uma boa candidata. Não era. Não era. Mas ele é pior. 

Entendo que foi a escolha fora-do-sistema dos americanos que se sentiram abandonados pelos seus políticos. Infelizmente, não me surpreende que esta maioria que o elegeu se iluda, pensando que um businessman americano se preocupará com as suas dificuldades. Preocupa-me muito que essa escolha ignore ou aprove o discurso xonofóbo, racista, homofóbico, misógeno do novo presidente... Preocupa-me a sua falta de experiência, a sua completa inabilidade diplomática, a sua convição, tão americana, que a razão estará sempre do lado americano, porque os USA são o umbigo do mundo . 

Mas este título não é sobre a eleição de Trump. Este é apenas o título de um poema que aqui anda há dias, por publicar. E não tem mesmo nada nada nada nada a ver com os americanos. Cá fica. 


Ele tinha uma ideia clara
do que havia de ser entre os dois
de como se encontrariam ao acaso
numa rua qualquer
tomariam juntos um café
era sempre a segurança do café
e enquanto mentiam
sobre os caminhos que levara a vida
cada um deles estaria inteiro
por uma hora ou duas
ele havia de pensar noutro prazer
ela ler-lho-ia no olhar
ou num gesto mais lento
e se o dia fosse bom
se o dia fosse inesperado
acabariam os dois na sua cama
ela saberia a whisky, ele também
ela teria a pele quente
ele não se cansaria
e quando o lugar vagasse sem retorno
se o dia fosse bom
se o dia fosse inesperadamente bom
não viria a sombra da noite
preenchê-lo de vazios
tinham frios ângulos os vazios
sobretudo os nocturnos
Era estranho como uma casa
com sofá, tapetes e tantos livros
se aguçava assim até rasgar

sábado, 5 de novembro de 2016

Há que séculos...

que não escrevo nada aqui no blogue, nem um poema. E hoje é só para lembrar, até a mim, que nem eu, nem o monstro estamos mortos.

Entre testes para corrigir, sete turmas deles, bocadinhos de tempo roubados para revisão de texto, que vai de vento em popa, quase na página 260 de 410 (neste momento, pode ainda crescer ou diminuir) e a lentidão das leituras, sobra-me pouco tempo e pouca vontade. Tenho em atraso a opinião de Adoração, de Cristina Drios. 

O que vale é que um blogue não é trabalho, que nesse não se pode falhar, mas conhaque. Por isso, até breve, que pode ser já amanhã, ou quando calhar.