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domingo, 19 de fevereiro de 2017

o querubim dorme

Já há laranjas
em flor
na fruteira da cozinha
e as asas de um anjo
a amadurecer
ao sol
o querubim dorme
no sofá
aconchegado ao gato
é preciso ir comprar leite
para os dois
e mais flores
para as laranjas
um de nós, somos milhões,
há-de fazer-lhe
um bercinho de salgueiro
um casaquinho
de algodão doce
umas botinhas de pelica
muito fina
mantinha não quer
tem um gato
amarelo
e flores de laranjeira
no cabelo


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

não respondo por mim

pois que se acabe este dia
já me extravaza as medidas
e se não dou conta dele
há de estalar o verniz
e aí já não me meço
e aí já não respondo
pela força do meu braço
pelo vermelho do verbo
sou capaz de vir da esquina
e dizer três palavrões
antes de pregar um estalo
ou agarrar este dia
pelo fundilho das calças
e mandá-lo para outra parte
donde já não volte mais
fique lá todo partido
enterrado lá bem fundo
para o quinto dos infernos
e que me deixe sossegada
que daqui nãoleva nada

domingo, 12 de fevereiro de 2017

canção de assentar

das coisas que trazes contigo
vê qual te serve de chão
onde os passos melhor te assentam
o que é fundação

de asas que entendes tu
que sabes tu de assentar
saltas das rochas quilha ao vento
provas na língua o ar
confundes com a liberdade
a liberdade do olhar

mas vê bem guarda contigo
um pedaço de caminho
onde descer se o voo cansa
e fazer um novo ninho
que a liberdade é uma viagem
quando tens onde pousar

de asas que entendes tu
que sabes tu de assentar
saltas das rochas quilha ao vento
provas na língua o ar
confundes com a liberdade
a liberdade do olhar




sábado, 11 de fevereiro de 2017

como gente viva

este acorde que trepa em frágil aspereza
e depressa faz casa na caixa do peito,
que história traz ele, que palavra o persegue,
quem dança em cada som, quem mora na pauta

que ideia esta, que me assombra a mim,
de descobrir mais vida no caroço do som,
nas margens das telas, no silêncio das noites,
narrativas, símbolos, gentes que se movem,
vozes sobre vozes sobre a respiração
nos espaços abertos nas cores e harmonias

é isto que escondo nas letras que se erguem
que ergo eu, linha a linha sobre a folha branca,
pequenos fantasmas como gente viva
que nunca nasceu senão por trás dos meus olhos
mas dança em sinfonias ganha forma e faz




domingo, 5 de fevereiro de 2017

História de Quem Vai e de Quem Fica - Elena Ferrante

Terminado este terceiro volume de A Amiga Genial, de Elena Ferrante - História de Quem Vai e de Quem Fica - e tendo já dito tanto sobre os livros anteriores, deixo apenas umas notas: 

Resultado de imagem para história de quem vai e de quem ficaos títulos são mais geniais do que a amiga, principalmente este;
foi interessante acompanhar uma fase mais madura do desenvolvimento da narradora, Lenú, e da sua amiga Lila, e um certo esgaçar da dependência... da subserviência, é assim que diz Lenú,  desta para com Lila;
alguns momentos de discurso mais político deixaram-me uma irritação vaga, mas eram inevitáveis, tendo em conta a época de tumulto comunista-fascista em Itália (e não só) em que a história se desenrola;
por esta altura, envolvida como vou estando na vida destas mulheres, já não estou certa de saber dizer se o livro é melhor ou pior do que os anteriores;
e que fim foi aquele?? Um cliffhanger num livro desta natureza? E eu que tenciono adiar a aquisição e leitura do quarto e último volume para depois da de O Labirinto dos Espíritos e do livro Hunter, em inglês, que me foram rcentemente oferecidos pelo meu marido!

A opinião é breve, mas remeto para as anteriores:




segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

música nos tornozelos

levavas um vento bom
debaixo das saias
dançavas ao ritmo
de um rufar de guerra
via-se que tinhas
a música nos tornozelos
pulseiras nos braços
com guizos e rocas
marcavas compassos
de cobra cuspideira
ah amiga o quanto rodamos
tu de dentro para fora
eu de fora para dentro
tu falando sempre
eu sempre calada
tu dançando pela madrugada
eu escutando a música
dos teus pés de fada
uma dia ardente
outra noite estrelada




sábado, 28 de janeiro de 2017

A tentação

Tenho frequentemente a tentação de, enquanto escritora, dar conta a minha vida a cada passo que dou, aqui ou numa rede social. 

Tenho, por exemplo, a tentação de vir a correr contar que acabei de fazer uma revisão de texto, mesmo que seja a terceira ou quarta, se preveja pelo menos mais uma, depois de editado por quem sabe da poda, e não haja ainda data de publicação, como aconteceu esta manhã com A Chama ao Vento.

Ou de vir de imediato anunciar a data em que sairá o meu próximo romance, porque falta mesmo pouco, mesmo que a data ainda não esteja completamente assente (pode ser um dia ou outro dia), não haja capa e seja provável que ainda tenha lugar mais uma revisão, talvez em papel.

Ou partilhar excertos de textos que ainda não estão na sua versão final.

Ou as dificuldades inerentes a este trabalho, à pesquisa, à produção, à falta de tempo, às inseguranças e dúvidas e à vontade ocasional de mandar tudo às urtigas, porque, afinal de contas, poucos dariam por isso. (esperem, não assumam ainda que vivo em depressão, eheheh, porque:)

Ou partilhar o gozo que é ter criado estas histórias, estas personagens, o gozo que é trabalhar com a minha lindíssima língua-mãe, e saber que a leitura deu prazer a uns quantos leitores e talvez até tenha um ou dois... eeehh... vá, um ou dois fãs, que, sabendo que vem aí novo livro, o aguardarão cheios de vontade de ler. Partilhar o essencial que seria para mim continuar a escrever, mesmo que o fizesse só para amigos... porque não, não acredito no escritor que publica, mas diz que escreve só para si.
    
Posto isto, vou resistindo diariamente a todas estas tentações, porque uma coisa é a pessoa, que quer partilhar tudo, outra o escritor, que tem a obrigação de resguardar o seu trabalho até estar em condições de ser lido. De quando em quando acabo por ceder, como hoje. Hoje estou mesmo satisfeita: a revisão do Chama correu-me bem, matei muitos "darlings", mas é a última antes de ser visto pela editora. O Ano da Dançarina vem mais cedo do que esperava. Estou ansiosa pela capa. E posso dedicar-me ao projecto que deixei a meio. E voltar a ler! Suspendi todas as leituras para rever, mas agora estou a começar A História de Quem Vai e de Quem Fica. Iuuuupppiiii!!! 

Prometo que a proxima publicação do monster será de outro tipo.