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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cidade Mulher

Atracamos hoje descalços quase nus
é dia de calor abrasador no cais
um rio cintila como jóia entre seios
de uma mulher bela no seu cabelo prata
estende braços lisos sobre as esquinas
coxas pétreas antigas muito quietas
de veios finos incertos como ruas
para o centro, o centro branco ali mesmo
uma praça aberta ao mundo inteiro
útero de maravilhas de pedra e sol
e viagens de navios de pau e coragem
mulher elegante na largura do caminho
mais adiante será curva e escarpa
beco e tasca e sacada em sacada
escura e torcida velha vizinha azeda
Viemos saber quem era esta mulher
de alma de velha em corpo de menina
voz rouca de fado e brado de varina
para aprender as rugas da sua pedra
na nossa pele de por dentro viajantes



sábado, 20 de maio de 2017

O Dançarina foi a Perosinho

que, numa coincidência engraçada, de que só me lembrei mesmo no fim do encontro, aparece muito rapidamente referido lá pela página 189 ou 190!!

Como foi, perguntais vós. Uma maravilha, respondo eu.  

A meio da tarde saímos, pela terceira vez em menos de um mês, com destino ao Porto, para esta última tertúlia sobre O Ano da Dançarina. Fomos primeiro cumprir as francesinhas, como compete a quem visita o Porto, com o Paulo M.Morais, que acedeu com gentileza a orientar esta conversa no Perosinho, em jeito de lançamento, e a Isabel Rio Novo, autora de Rio do Esquecimento, e chegamos ao Perosinho quase, quase com pontualidade britânica (vá, só com uns cinco minutos de atraso).

O Paulo já me tinha falado um pouco sobre esta Biblioteca, que não é Municipal e que depende do empenho do Vitor e da Anabela, da Manuela, do José, da Carmindo, do Eduardo, do Jaime e da Albina. E que empenho! Nenhum aviso me poderia ter preparado para a surpresa de ver este espaço, em si acolhedor, preparado com tanto esmero para apresentar o livro! À chegada, não só fui recebida com toda a simpatia, café e alguns mimos saborosos, como me deparei com um espaço de tertúlia organizado ao jeito de café (mesmo como eu gosto), e decorado com as reproduções de notícias e fotografias da época que podem ver, sobre a primeira guerra e a pneumónica. Entre duas confortáveis cadeiras, ao centro, a capa do livro... e a máquina antiga? Tem um excerto do Dançarina!

Depois de dois dedinhos de conversa e admirado o espaço, tão bonito!, sentamo-nos para a tal conversa e eis que entra a jovem Mafalda, que abriu a tertúlia com uma delicada dança. Que dizer, a não ser que fiquei encantada? Como se não bastasse, prosseguimos com a leitura da declaração de guerra alemã aos portugueses e de um texto sobre a pneumónica que eu juraria reconhecer das minhas pesquisas. Que maravilha! 

Foi então que, depois de algumas palavras do Vitor, o Paulo Morais abriu as hostilidades, e a nossa conversa fluiu, com meia dúzia de perguntas certeiras, de jornalista, não só o livro em si, mas sobre a sua categorização (histórico ou de época?), sobre o processo da sua construção - e da minha construção da escrita, em geral - sobre o presente,o passado e o futuro, o romance de fantasia, o contemporâneo, a poesia e até o M. no meu nome! Mauzinho. O M. do Paulo é de mauzinho. Conheço o Paulo há já uns anos, de ouras andanças, pelo que acabou por ser uma conversa descontraída, divertida, em que cheguei a esquecer-me de que havia gente que não me conhecia a assistir. Quando assim é, sentimo-nos ao mesmo tempo um pouco atemorizados (terei dito alguma coisa que não devia?) e muito satisfeitos. 






Terminada a conversa, houve lugar a assinatura de livros, a conhecer a Maria Manuel Magalhães, do blogue Marcador de Livros (podem ler a sua opinião do Dançarina aqui) e a Ana Ferreira, com quem converso há anos online, que já leu muita coisa minha e de quem já li algumas coisas também, mas que ainda não tinha tido oportunidade de me cruzar pessoalmente. Conversou-se, brindou-se à Biblioteca, aos escritores e aos leitores, fizeram-se fotografias, em ambiente de festa. 

Na despedida, fica a minha admiração por quem leva adiante estes projectos com tanto carinho e amor pela literatura, e a minha gratidão, ao  Perosinho e ao Paulo. Não é adeus, é até à próxima!







E trouxe comigo uns miminhos...

quinta-feira, 18 de maio de 2017

a bolha

bolha
ilude com beleza irisada
e leve
mas vejam
vejam
a fragilidade translúcida
não engana
escutei muito bem
sei que se espera
força
largas asas
peito como quilha
de uma nau
mas é tão intensa
a ausência
de um pedestal
todo o voo
é breve
toda a queda
dura
toda a miragem
se gasta na distância

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A maioria dos livros...

... vive menos tempo do que leva a nascer.
Depois da sua morte, alguns têm ocasionais rasgos de Fênix, renascendo com mais ou menos fulgor para fenecer novamente, mas a maioria permanece como costumam ficar os mortos: morto.
Um ou outro, mais raros, fazem-se (quase) perenes.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

limões de madrugada

hora de erguer o corpo
e fender janelas
quero a luz azul da madrugada
onde o bafio fede
não se respira
nos quartos cerrados
atravessar a casa
abrir porta atrás de porta
até à última
cada labirinto
sua saída
ir raspar caminhos novos
no saibro de um jardim
e porque não?
posso ter jardins
do lado de fora
desta meada de paredes
ir caminhar desengonçada
de dedos dos pés
na pedra fria
entre hortênsias
e brincos-de-princesa
passar os dedos
nas folhas húmidas
de orvalho
poder seguir
de olhos abertos
a perfeita liberdade
do azul a nascer no horizonte
e do aroma dos limões
de madrugada








Coisitas de escritor

E o que quer um escritor que publica? Quer pouco, mas muito.

Condições para escrever.
Seja estabilidade ou tumulto, silêncio ou ruído, viajar ou estar quieto, conforto ou tortura. Acima de tudo, que tenha uma cabeça fresca e esse bem precioso que, à conta de tanto nos faltar, vale ouro: tempo. Muito tempo, para respirar, pensar, planear, redigir, reler, apagar, reescrever, adorar, odiar, não se conformar com o que escrever. Um bocadinho de inspiração ajuda, mas defendo que há na escrita (de romances) mais trabalho do que inspiração. Para quem tem a escrita como actividade colateral, embora necessária, não é dado adquirido que as condições se reunam sempre.

Ter uma voz só sua.
Uma voz que esteja nos seus trabalhos independentemente das temáticas e dos malabarismos narrativos que decida para cada livro. Ser distinto, reconhecível mas não idêntico, de livro para livro. Não ser igual a ninguém, nem ser inteiramente igual a si próprio, sem no entanto se trair. Confuso? Não, nem por isso. Difícil? Pois, não sei. Se não surgir naturalmente, não sei como se faz. E que com ela venha uma coisa essencial, o respeito. É fundamental ser respeitado enquanto autor, ter um lugar. E só sobre isso haveria um texto completo para escrever.

Ter leitores.
Ter leitores que o seguem de livro para livro e leitores novos a cada livro. Estranho que um autor que publica diga que lhe são indiferentes os leitores. Assumo que se publica para lhes trazer algo, conhecimento, prazer ou incómodo, outra coisa? Um leitor que publica nada é sem leitores, ainda que não escreva (não deva, não possa) condicionado por eles. Que de preferência que os leitores gostem do que faz, claro, porque há muito suor nas páginas e nem sempre o ego do autor é de ferro. São de invejar os autores que decidem que, se o mundo não os aprecia, é porque não os compreende e não os merece, mesmo que isso seja uma espécie de cegueira que os protege. Claro que o autor que publica precisa de costas largas e fortes, custa um bocadito se o trabalho desagradar, mas há que assumir que a exposição traz alegria e dor, que é natural (e desejável?) que, onde uns encontram virtudes, os outros descubram falhas, que leitores diferentes interpretem de formas diferentes, de acordo com as suas naturezas e experiências. e que enfim, enfim, enfim.

Outros autores poderão precisar de mais. De ganhar dinheiro, ser famoso, fazer da escrita a sua vida, ser a voz de uma nação, ganhar o Nobel, sei lá. Contento-me com menos: tempo, uma voz, respeito e leitores. Peço muito? Se calhar. Mas trabalho, sem dúvida, para os merecer.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Encontro na Maia

Uma semana depois de ter estado em Ovar, voltei a fazer a viagem para Norte, para um novo encontro com leitores, desta vez com a excelente Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia. 

Foi, como esperava, um encontro muito diferente do anterior. Não na hospitalidade, que parece apanágio do todos os que me têm recebido, porque fui, mais uma vez, acolhida com a maior simpatia, num almoço de confraternização em que todos nos esforçamos por não falar do livro. A diferença foi no teor da conversa e no à vontade com que pude falar do livro, sem receio de revelar mais do que devia, uma vez que o livro já tinha sido lido - e discutido - pela generalidade dos presentes. Do resultado do primeiros desses dois encontros para discussão, aliás, dá conta o Joaquim Jorge Silva, no jornal MaiaHoje: 

"A Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia tem em mãos o mais recente romance de Carla M. Soares, “O ano da dançarina” (Marcador, 2017), uma obra que (re)visita Grande Guerra, não tanto como eixo central narrativo mas como ponto de partida para uma história que coloca em paralelo duas tragédias que no seu conjunto, em Portugal, no ano 1918, dizimaram milhares de homens e mulheres: a Grande Guerra e Gripe Espanhola. (...) Em suma, estamos na presença de um livro arrojado, ambicioso, capaz de surpreender o leitor de o agarrar, dando-lhe, na sua viagem leitora, motivos para ficar a pensar na vida. A forma como cada um com ele se relacionará será, obviamente distinta, como distinta serão as suas opiniões." (opinião completa aqui)

Foi-me prometida discussão acesa, porque no segundo encontro ninguém se entendia quando ao conteúdo do livro, ao que era ou devia ser, ou quanto às minhas intenções e às virtudes e falhas da narrativa. E houve mesmo discussão acesa e muito divertida, porque todas as questões me foram colocadas, desde as expectáveis, como, por exemplo, algumas relativas ao papel da mãe, ao peso e natureza de cada personagem e ao seu percurso na narrativa, à guerra, à gripe e ao título, às mais inesperadas, sobre, por exemplo, a possibilidade de algumas relações amorosas que jamais me ocorreram, à pertinência de mostrar um casamento ou aos motivos para dar certo fim a certas personagens, que são prerrogativas do autor, como dono absoluto do que escreve. Chegou-se à conclusão lógica - e muito bem enunciada pela Isabel Rio Novo - de que o autor só é responsável pelo que escreve, não pelas interpretações dos leitores. Estes fazem, na sua leitura e a partir das suas experiências pessoais e natureza, a segunda parte do trabalho de criação, e, isto disse-o eu, é bom sinal que para o mesmo livro as interpretações sejam múltiplas e díspares, significa que a profundidade do que foi escrito as permite. Foram mencionadas algumas partes favoritas e menos favoritas do livro, o que foi interessantíssimo e muito recompensador. 

Tratou-se, de facto, de uma conversa animadíssima e, juro ao Jorge e à Comunidade, não saí dela nada maltratada. Pelo contrário, vim com a impressão de que o livro tinha agradado. Mais ainda, é delicioso que as interações sejam diversas de encontro para encontro e que, num, possa falar da escrita em termos mais gerais, e menos do livro, para não cair em certas revelações e, noutro, possa esmiuçar o livro sem medo, e fale um pouco menos de escrita em geral - falou-se um pouco também, claro, de percursos, pesquisa, método de escrita e perspectivas futuras.  

Tive direito a visitas especiais, as do Paulo M.Morais, que generosamente fará a apresentação do livro no Perosinho, da Isabel Rio Novo, que tinha tanta vontade de conhecer, e uma visita especialíssima da minha querida Rosa Maria Nunes, colega de mestrado que há tantos anos não via. No fim, um bolo lindíssimo (e delicioso) a marcar o Porto de Honra e um momento para fotografias de grupo, já desfalcadas de vários elementos presentes no encontro, e de conversa informal.

Resta-me agradecer ao Joaquim Jorge Silva e a esta afável e incansável Comunidade de Leitores, que espero ter a oportunidade de voltar a visitar.  


(fotografias graciosamente cedidas pela Comunidade de Leitores da Maia)