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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Faz como queiras

Cuidado.
Cuidado onde assentas o pé
a terra é mole
se te distrais
é ela quem te engole.
Tens de ir.
Mas marcha com a certeza
dessa guerra
marcha devagar
que é mole a terra.
Prende-se a perna
come-te o verme
acerta a bala
morre o sangue
que te sobrava.
Ainda vais.
Faz como queiras.
Mas sabe que não há
estradas certas
as que há
estão desertas.
Eu fico.
Vai.
Mas sabe que só
até o ar
é movediço






terça-feira, 23 de agosto de 2016

Arquipélago - Joel Neto

Há algum tempo que desejava ler este livro do Joel Neto, uma das estrelas da editora com que eu também trabalho neste momento, ao mesmo tempo que temia fazê-lo - já expliquei por aqui as razões, as mesmas que me levaram a pegar com muita relutância no A Amiga Genial. Tal como aconteceu com esse livro, não tinha razões para isso. Desde já agradeço à Marcador a oportunidade de lê-lo.

A quase totalidade da história decorre no espaço limitado da ilha Terceira, nos Açores, com uma pequena passagem por Lisboa. Já estive nos Açores, há muitos anos, em S.Miguel e na Terceira e, não sendo grande viajante, não tenho qualquer hesitação ao afirmar que as duas ilhas vão estar sempre entre os lugares mais bonitos que conheço. Os Açores são belos porque são um luxo para os olhos e porque guardam um quê de selvagem e cerrado sobre si próprio que senti em quase toda a parte - nos caminhos isolados, nas pequenas povoações, na extremidade de uma ponta suspensa sobre o enorme Atlântico... Parte dessa impressão poderá ter sido imaginação minha, mas, a ser assim, sucedeu porque a ilha se me ofereceu dessa forma.

Foi essa impressão que recolhi deste livro também, a de um lugar que ao mesmo tempo se oferece e se escusa ao homem, que se permite habitar, mas não domar, que é dotado de vontade própria e a impõe aos seus habitantes de forma inequívoca, estremecendo e destruindo-se, destruindo-os a seu bel prazer, conformando-os ao seu espírito de ilha, de espaço isolado e ancião, numa relação de amor e ódio, Bem e Mal e tudo o que há entre eles. Há uma história de alguma magia, o mito da Atlântida, vestígios de ritos e civilizações antigas, algumas efabulações da personagem central, que estão no limiar entre o realismo mágico e a agitação mental, mas a verdadeira magia é a do lugar. 

Depois há a realidade, a meter-se pelo meio, porque as hesitações e dúvidas de Francisco, com o qual a maioria dos homens e mulheres nos quarentas terão toda a facilidade em criar empatia. Não há nada de extraordinário neste homem, a não ser não sentir os terramotos, a não ser ter-se mudado de armas e bagagens para a Terceira, a não ser o que lá encontra e o que lá imagina, a não ser o que há de extraordinário em todos nós, de bom e de mau. A não ser a sua culpa, sentimento que, acabamos por compreender, permeia e motiva quase tudo nesta história de muitos culpados e de muitos que, não o sendo, o são por omissão.  

O livro tem um ritmo sedutor, uma escrita impecável, descrições fantásticas e bem integradas de lugares, sabores, até conceitos, personagens densas, personagens caricatas, personagens que, como Luísa, se deixam apenas antever, e tudo funciona para fazer dele uma belíssima leitura. Teria muito mais a dizer, se não me tomasse uma deliciosa indolência de Verão. Não me apetece escrever sobre o livro. Mesmo que tenha gostado muito, muito dele.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

círculo

Então e se depois
de todas as coisas feitas
das palavras esgotadas
a montar cenários
dos rotos ensaios
de idêntico desfecho
de descobrir as térmitas
roendo os alicerces

e se depois de tudo
for ainda a conclusão
a mesma do início
for ainda a paisagem
desenhada a esquadro

insistirás na casa
de porta empenada


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Stranger Things (netflix) - em directo dos anos 80


A nova série de sucesso da netflix, Stranger Things, tem os ingredientes certos para agradar a (quase) qualquer pessoa, um bom enredo, com mistério, suspense, ficção científica e um tanto de fantasia, personagens giras, entre miúdos e graúdos que são, ao mesmo tempo, clichés de um certo género e personagens com densidade, e uma época muitíssimo bem retratada. A prova disso mesmo está em que a minha jovem de 17 anos agarrou-se à série numa tarde e só parou quando estavam vistos os 8 episódios. Pois é, só 8, é curtinha a temporada e ainda não há outra.

A série é melhor ainda para quem cresceu nos anos 80 ou para quem é, ao menos, fã dos filmes dessa época. A primeira coisa em que reparei, decorrendo a acção em 1983, é que nesse ano eu tinha precisamente a idade dos protagonistas mais novos, 12 anos. Não era dedicada a jogos de tabuleiro do estilo Dungeons&Dragons - ainda faltava muito tempo para os computadores em casa, nem mesmo Ataris ou Amigas ou sequer os malditos Spectrums, horas à espera que o jogo carregasse do gravador, com o mesmo alarido de um copo misturador, para no fim ler "loading error" or "load failed" ou o que era... mas mesmo isso foi mais tarde. Preferia livros, mas a bicicleta era essencial para mim e as referências, salvaguardando as distâncias e diferenças geográficas, estão todas lá. Até o fascínio com a ciência e a previsão - fácil de introduzir a posteriori, claro - de que o futuro estava nas ciêncas e nas tecnologias.

Para além do enquadramento visual da época - ahh, os velhos telefones fixos, os walkie-talkies que faziam as nossas delícias antes dos tms existirem, as calças de cintura alta superfoleiras, e tudo, tudo - há um sem número de referências fílmicas que são capazes de escapar aos jovens mais distraídos. Os miúdos lembram os Gonnies, mas de bicicleta saltamos logo para o ET, os adolescentes são Footloose (sim eu sei que é de 1984), os aspectos mais obscuros fazem-me lembrar os filmes de horror da época, The Thing, Poltergeist e outros, o gore é muito Alien (o 8º Passageiro é de 1979), e há um momento Rambo que me fez sorrir...  Só não meto por aqui os X-files, porque são posteriores! 

Pode-se, pois, apreciar a série de muitas perspectivas diferentes: pela série em si, pelo enredo, acção, personagens, etc, pela forma como remete de forma impecável para o ano de 1983, apropriando-se e usando da melhor forma possível os clichés da época, ou pela homenagem aos filmes de uma época que foi, de certa forma, fundadora de uma corrente mais pop. Há decerto outras coisas que não vi, mas estão lá e podiam ser acrescentadas.   Quem pode apreciar isto tudo junto? Maravilha!


sábado, 6 de agosto de 2016

Agora que tenho tempo

ando nisto...

Dolce far niente, John William Godward (1861-1922)

... mas hei-de acabar pelo menos a re-re-revisão do A Chama ao Vento e ler o Arquipélago, que já comecei (promessa a mim própria).


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Jason Bourne - fantástica adrenalina inútil

A trilogia Jason Bourne foi das mais entusiasmantes a que assisti nos últimos tempos. A acção foi sempre extraordinária, brutal, de manter o espectador agarrado ao assento e de respiração suspensa, mas a história não ficou atrás e cada filme veio completar o anterior. 

Cheguei ao fim da trilogia com a sensação de ciclo fechado e, como tal, o anúncio de um novo Jason Bourne deixou-me curiosa (vou esquecer o outro spin-off, o tal Legado, que sendo um bom entretenimento, tanto podia ser Bourne como outra coisa qualquer). O que poderia este filme trazer que acrescentasse ao que já estava feito? Ou seria um derivativo inútil? Conseguiria manter o nível de entusiasmo com que continuo a ver os três do primeiro ciclo?

Sim e não. 

O filme é uma montanha russa, que, no que diz respeito à acção, falhou para mim apenas na segunda perseguição automóvel, pelas ruas de Las Vegas, longa, exagerada, excessivamente brutal, desnecessária e, em última análise, irrealista. Fogo de artifício. De resto, é de prender o fôlego desde o primeiro ao último momento. Matt Damon, nos seus quarentas, continua fantástico. Ele é Jason Bourne, esqueçam as mudanças à James Bond. Tommy Lee Jones é sempre garantia de algo bom, embora não fuja do padrão dos anteriores directores da CIA nestes filmes, e Alicia Vikander domina com um ar de incoência que nos mantém na dúvida quanto às suas intenções mesmo até ao fim. Há cenas fantásticas de uma manifestação violenta na Grécia, logo no início - embora mesmo aí mantenha que as perseguições de carro por entre multidões sem se verem corpos a saltar, atropelados, é irrealista. Infelizmente, tivemos bem noção disso em recentes acontecimentos reais. 

A intriga não é desisteressante, pelo contrário, mantém os ingredientes dos anteriores numa mistura exacta... e, no entanto, inútil. Este filme não faz falta. Não prejudica os anteriores, mas não era de todo necessário. Ficamos a saber um pouco mais acerca do modo como David Webb / Jason Bourne chegou aos programa? Sim, mas não era preciso. Acrescenta-se um novo conhecimento sobre programas futuros? Sim, mas já se calculava que eles existissem, com vigilância global, etc. Ficamos a saber mais sobre a o modo de vida actual de Bourne? Um pouco... mas nada que nos fizesse falta. E o que quer isto dizer? Que me diverti muitíssimo e que o filme é excitante, enquanto estamos sentados na cadeira, um excelente espectáculo de cinema. Faz da trilogia uma tetralogia? Bom... não. Para mim não. 

A preguiça de Verão e a impaciência de autor

Parecem coisas contraditórias, não é? A lentidão da preguiça não se coaduna com o nervoso da impaciência, mas a verdade é que, este Verão, estou sujeita a ambos. 

Dissecando.

Estive de férias na praia uma semana - não que tenha feito praia todos os dias, isso era muito para mim. Durante essa semana, li apenas um livro, do qual já fiz opinião, e abdiquei quase completamente de rever texto. Para descansar, depois de ter revisto O Ano da Dançarina de empreitada, e também porque não me pareceu simpático isolar-me, como precisaria. Resultado: fui tomada pela preguiça e agora parece que nem leitura, nem escrita. Uff! Pego no A Chama ao Vento, que precisa de revisão, porque a versão ebook tem uma série de gralhas e, depois de dois anos sem olhar para o livro, consigo sacudi-lo e mudar coisas que precisam de ser mudadas (sem mexer na história, afinal há uma versão publicada em ebook). Não sei se / quando vou precisar dele, mas dava muito jeito seguir depressa com esta revisão. Outro livro aguarda nas sombras...

E a impaciência? Pois. Sempre tenho dois livros na editora, à espera de uma aprovação e uma data de publicação... ou não. Sim, sei que estas coisas levam tempo, levam muito tempo. Já passei por isso vezes suficientes, mas que querem? Fica-se ansioso, como antes da saída de uma nota de exame ou de um trabalhio, só que sem nenhuma previsão de data para saber. Não sei se, com o tempo e a experiência, isto se alterará, desconfio que não. Pior agora, em que o trabalho é pouco (esta semana não estou de férias) e pior ainda quando não houver nenhum. Para mais, metem-se as (muito merecidas) férias de quem trabalha na editora. Também é verdade que a relação tem sido impecável e sei que, mais cedo ou mais tarde, essa tal resposta definitiva chega. 

Entretanto, vamos lá ver se me sacudo e ponho mãos aos trabalho - se pego no A Chama ao Vento e se leio o livro que me espreita da mesinha da sala, Arquipélago. Tenho a certeza de que vou adorar.