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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

relógio

escada feita de horas
feita de horas
feita de horas
em patamares lentos
feitos de momentos
vê bem quem as desce
espectro desatento
atenta quem as sobe
em bailado lento
tens tu os teus passos
o teu movimento
de secreto pêndulo
feito de tempo
de tempo de tempo
de cima tomba
embaixo desenrola
trepa devagar
demora a chegar
de repente acaba
o pêndulo o tempo
na longa escada
feita de horas
já não há degraus








quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Ensaios de Outono

Que dos ensaios
Resultado de imagem para autumn leaves fallingpara mudar a estação
este seja o último
confirma que pintaste de ouro
as folhas
ou de refulgente castanho
ou da cor terrosa
da oliveira
É preciso que o Outono
saiba que chegamos
Tira do armário
os mantos de nuvens
sacode-os para soltar as águas
abre as janelas
deixa entrar o ar frio
pousa com cuidado a geada
sobre o orvalho
chega-te a mim vem
que é hora de ficar a ouvir
crepitar as labaredas
num canto da sala

sábado, 17 de setembro de 2016

vagas de sal e flores

Prometi que acolhia o dia
com fanfarra de três tambores
que abria a janela do quarto
ao nascer do sol
para que entrassem os odores
da minha vida
alfazema brava e maresia
e se viesse com eles a poesia
estaria à proa de uma frase
mãos descobertas
Do outro lado da janela
há ouro e chama
e na ventania
pressinto vagas de sal e flores
quem me escondeu a banda
que podem vir palavras
e eu não conheço a melodia
perdi o chão de letras
e não sei da criatura
que me amarrou à poesia







quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Para onde vão os guarda-chuvas - Afonso Cruz

18591734Tinha este livro há algum tempo na minha pilha dos que vão ser lidos a seguir, mas, por um motivo ou por outro, acabei por levar uma eternidade a pegar-lhe. Depois de ter começado, porém, voou entre os meus dedos. Tem mais de 600 páginas, mas lê-se como se tivesse metade, em parte porque muitas das páginas são preenchidas com lindíssimas fotografias, como porque os capítulos são, na sua maioria, muitos curtos. 

Gosto muito de Afonso Cruz, não só da sua escrita, mas da sua figura humanista, de escritor, músico, artista plástico, homem da cultura, e de uma certa placidez e bonomia nas fotografias em que aparece (não o conheço pessoalmente, talvez engane, não sei, mas é o que vejo). Gostei muito do que li dele até aqui e, no entanto, a minha leitura deste livro não foi sempre pacífica. Pelo contrário. 

Li as primeiras páginas com relutância, perguntando-me o que teria mudado em mim, enquanto leitora, que me fazia rebelar contra o estilo metafórico, carregado de imagens, poético, que tanto apreciara no autor noutros livros. Acabei por envolver-me na fantástica história, claro, nas personagens, que são tão importantes para mim, por segui-las com ansiedade, por identificar-me com algumas das suas dores, por revoltar-me com a violência, mesmo nos homens bons, e com a naturalidade com que ela é encarada, por espantar-me com a semelhança nos que nos são tão diferentes e em observar com fascínio alguma da filosofia e cultura - tão diferente a cultura, tão iguais que somos enquanto seres humanos, nos sentimentos, ansiedades e buscas. Fui esquecendo alguma impaciência com o estilo, que acabou por absorver-me, porque é bonito, elaborado e serve muito bem esta narração (Afonso Cruz é de facto um mestre do seu estilo), ainda que, de quando em quando, uma frase ou outra, uma imagem ou outra me fizessem estalar a língua ou sacudir a cabeça. Estou diferente? Sou outra leitora? Se calhar.  

Dei por mim a perguntar-me se isso representaria também uma mudança enquanto escritora, não para uma escrita mais despojada, porque já é o que faço, mas para a aceitação de que a metáfora e a exacerbação de uma certa imagética não me serve, ao contrário do que, durante algum tempo, desejei e aspirei fazer. Servir-me-à para a poesia. Talvez. 

O livro é maravilhoso, com ou sem um certo excesso verbal - para mim, neste momento, isto é capaz de passar-me -  e nem vou referir o fim, que é dolorosamente (im)perfeito. Não quero.

Nota: quase me esquecia de umas palavrinhas finais para as fotos, a remeter a vida para um jogo de xadrez, como em muitos momentos o livro refere. Muito bem. 

domingo, 11 de setembro de 2016

eram promessa e projecto no dia em que o mundo mudou

Faz hoje quinze anos que o mundo mudou.

Há quinze anos e um dia, viviamos na ilusão de uma relativa segurança, no nosso espaço. A guerra, o perigo, eram memórias do século passado, um século terrível, e  imagens distantes e exóticas na televisão. E então cairam as torres, mesmo no centro nevrálgico do mundo Ocidental. Foi a escolha certa para destruir as nossas certezas. A escolha ideal para mudar de vez o rosto do mundo Ocidental e trazer o medo para a raíz dos nossos dias. As ondas de choque desse instante em que o segundo avião deitou abaixo a segunda torre e arruinou a esperança de que se tratasse de um acidente ainda se fazem sentir, todos os dias, por todo o lado. 

Não perdi nenhuma memória desse dia, eu que, anos antes, tinha estado a fazer de turista no topo das torres e assistido lá a um casamento e visto de lá de cima a maravilha que é Nova Iorque, a irromper por entre o nevoeiro de uma tarde gelada do fim de Dezembro. A onze de Setembro de 2001 - o meu mês, o maravilhoso mês em que nasci - tinha uma menina com dois anos. Estava grávida do meu rapaz, embora ainda não soubesse que era um rapaz. Enquanto almoçava, assisti pela televisão, em espanto, às imagens do primeiro embate, da queda da primeira torre. Depois saí para uma reunião e, ainda mal acabara de sentar-me numa sala de aula, soube da segunda torre. As horas dessa reunião dividiram-se entre os assuntos que era preciso discutir e a vontade quase mórbida, a vontade assustada, a vontade de coração apertado, de saber o que se passava. E depois o Pentágono, e depois o avião que caiu sem ter atingido o seu alvo, porque os passageiros escolheram que morte queriam ter, e depois os corpos em voo sem destino do cimo das torres, e depois todo aquele betão, todo aquele vidro, todo aquele ferro a desmoronar, cheio de vidas, cheio de mortes lá dentro, por baixo dele. E depois dias e dias de muitas coragens diferentes, a mostrar que afinal o coração ainda batia. A custo, mas batia. 

E depois disso, o medo, na sua pior forma. O medo que cresce como um mal nos ossos, invísivel e omnipresente, a conformar o corpo e o gesto. O mundo ainda mal curado de um século de guerras mundiais, a Primeira, a Segunda, a Fria, e partido novamente em dois, o medo a insinuar-se nas frestas dos nossos actos e nós na ilusão de que os nossos dias ainda são os mesmos. Passamos a espiar o Mal, a adivinhar o Mal, muito para além desse que pode apanhar-nos numa explosão, num tiro, na lâmina de uma faca, nos pneus de um camião. O nosso largo mundo cheio de estradas e vias de comunicação e rápidos transportes apertou-se e acomodou-se ao medo. O medo passou a estar na nossa vida sob a forma de uma eterna cautela, no movimento, na acção, perante o Estranho, o Estranho aqui ao lado e o lá de longe, os olhos abertos perante a diferença. O medo de não destrinçar o Estranho que nos respeita a nós, seus Estranhos, e o que nos quer mal, porque lhe somos Estranhos,  a incapacidade de fazê-lo, e o mundo divide-se entre a coragem de acolher e o temor de fazê-lo, o desejo de repelir, o terror do que possa trazer por baixo das roupas, por baixo da pele, por baixo do próprio desespero. Porque eu não quero ver sofrer o Estranho, mas tão pouco quero ser o Estranho. Tão pouco quero ver o que conquistei converter-se aos poucos, pelo medo ou outras razões muito mais complexas, perder-se na escuridão. Esse mundo que mandou abaixo as torres é de tremenda escuridão, sobretudo para mim, que sou mulher. E eu tenho medo da sua inflexibilidade, mas também tenho medo da minha. Não a quero.

Eis-nos pois perante um mundo de intolerância ou outro mundo de intolerância. E esse é o medo maior, que a diferença entre mim e o Estranho não permita um encontro dos dois, porque nenhum desses mundos emparedades é o mundo que quero para os meus filhos, esses que eram promessa e projecto no dia em que o mundo mudou. Quero uma filha livre. Quero um filho vivo. Quero filhos sem medo num mundo sem medo. Imagine all the people. 

Ou talvez seja apenas eu. Talvez seja apenas eu e o medo apenas meu. 


sábado, 10 de setembro de 2016

se me for de voo

não lamento
se me for de voo
se me for de súbito
se me for a cavalo
num relâmpago
se agora sim
e a seguir não
o que temo
é a incerteza
do infinito
a insinuar-se nos cantos
da minha sala
temo ouvi-lo
fazer lento silêncio
sobre o bulício dos dias
temo que os dedos
se tolham
que encolha a voz
em lento passo
temo ficar
à espera da quebra
que vá de voo
que vá de voo



terça-feira, 6 de setembro de 2016

É mesmo para ver pelo buraco da agulha!

A péssima imagem é foto minha da capa.
Não se encontra imagem desta edição.
Habitualmente tenho de pensar um pouco antes de escrever uma opinião. Desta vez, sei com exactidão porque não gostei mais. Esta foi a minha primeira experiência com Follet e não me apaixonei. Sei que lerei pelo menos Os Pilares da Terra, mas não é provável que volte a ler um (dele) deste género. 

A história é interessante, mas não me agarrou, como acho que uma história de espiões deve fazer. Há certos livros que podemos ir lendo e desfrutando, mas um deste género deve, para mim, suscitar uma leitura compulsiva, o que não aconteceu. Há várias perspectivas, a do espião, a dos que o perseguem, a de Lucy, e interessei-me razoavelmente por elas e pelas personagens, mas, sempre que já estava semi-empolgada com uma linha narrativa, era interrompida para acompanharmos outra. Pode ser aceitável, por vezes, mas não fez nenhum sentido, por exemplo, que o climax da acção fosse suspenso para uma página de soldados a jogar às cartas - nem me lembro se no submarino alemão, se no barco inglês. Isto aconteceu outras vezes, noutros pontos da narração. 

O pior, porém, foi a tradução. Tento sempre evitar que a má tradução funcione contra o livro, porque não é culpa do original, e, sendo esta edição bastante antiga (de 1981), esforcei-me realmente para que a tradução terrível não influenciasse a leitura. Não consegui. Nunca li uma tão má. Tão má, tão má, que se fosse actual, pensaria que certas partes tinham sido metidas no tradutor da google. Assim, decerto tiveram direito a um dicionário ao lado das páginas, a assegurar uma tradução literal, palavra a palavra. Cheguei a perguntar-me se alguém que soubesse português teria lido a tradução antes de publicar, porque há frases que não fazem sentido, como "Jo equivocou o olhar contemplativo da fúria dela" e muitas, mas muitas, em que consigo ler o inglês por trás da frase, mas em que a expressão não existe dessa forma em português, como "O poder do pensamento inteligente deslizou suavemente dele". What?? Por vezes são parágrafos inteiros de parvoeira. E o "haviam", aos montes? E "ela pôs o comer"? Não, não, não. 

Li este livro, pois, dividida entre a determinação para chegar ao fim, apenas para saber como se desembaraçavam do espião e o que sucedia a Lucy (confesso que fui ler o fim para saber se ao menos isso me agradava), o desejo que isso acontecesse depressa e a preguiça de ler o livro, e um estado de permanente irritação com a maldita tradução. Chamem-me picuinhas. Não quero saber.