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quinta-feira, 27 de julho de 2017

As boas NOVIDADES!

Há uma nova editora no mercado, a Cultura Editora. 

A equipa, como alguns reconhecerão, é a da minha anterior editora, a Marcador, que sofreu algumas transformações. Os meus livros O Cavalheiro Inglês e O Ano da Dançarina continuam a pertencer a esta editora e a ser geridos por ela. 

Eu... eu acompanho, com muita alegria, a maravilhosa família que se lança nesta aventura. O que é que isso quer dizer? Que, se tudo correr bem, o meu próximo livro terá a chancela Cultura Editora.

Comigo na editora estarão autores como Joel Neto, Samuel F. Pimenta ou Flávio Capuleto, que anunciaram já pelo facebook a sua associação à nova editora.

Estou entusiasmada. Primeiro, há mudanças que chegam mesmo no momento certo. Segundo, é um prazer poder continuar a trabalhar com o João, a Marina, a Liliana e o Hugo. Não podia desejar equipa mais profissional, dedicada ou simpática. 

E portanto... vamos a isto! 





domingo, 23 de julho de 2017

violência

não é o sacudir dos alicerces
o ruir do edifício
não é a arma na mão do homem
não é o choro na voz
da mãe
nem sequer o sangue
nos escombros
é o olhar do menino
assombrado
seco
a pergunta esquecida
na boca aberta
são as pernas cobertas de pó
tão curtas
a boneca  quebrada no colo
de quem será
para sempre o medo do som
o medo da noite
do dia
do troar do comboio
eterna a perda
essa é a violência que eu temo




sábado, 22 de julho de 2017

Aventurar-me - os desafios

De vez em quando sou acometida de uma certa inquietude, e de vez em quando sou forçada a ela.

A minha vida tem um lado familiar muito estável e um lado profissional que, a espaços mais ou menos regulares, ameaça revolução. Sou professora há mais de 20 anos, quase 22, mas não pertenço ao Quadro de um escola: sou Quadro de Zona, o que sognifica que, a cada concurso, sou colocada perante a eventualidade de mudar de escola, sem o desejar. Claro que, com todos estes anos de profissão, estou já bem colocada para fazer as minhas escolhas, mas entre a probabilidade e a certeza vai uma distância que é monstruosa, para quem espera.  Tenho sonhos esquisitos na véspera da "rande revelação", bate-me o coração que é um disparate enquanto consulto a lista maldita, dividida entre a esperança de continuar na minha querida escola e o medo da interferância de algum espírito maligno  ter forçado toda a gente que está à minha frente a fazer as mesmas escolhas do que eu, e me ter atirado para alguma escola que não escolhi, mas já estou acostumada a isto e aprendi, há muitos anos, a não me afligir por antecipação.

Há, porém, outros desafios, que estão relacionados com a minha segunda ocupação, a escrita - não posso chamar-lhe profissão, quando não vivo nem viverei dela - que é muitas vezes a primeira no coração, perdoem-me todos os alunos de quem gosto tanto. É uma missão pejada de dificuldades e impedimentos, que são causados muitas vezes pelo meu ganha-pão, de dúvidas terríveis quanto à pertinência do que faço, de cansaços e desapontamentos, quando se constata que o nosso trabalho teve uma recepção boa, mas limitada (e sim, estou a falar deste último, de que eu e os leitores parecem gostar, mas teve muito pouca saída), mas é, ao mesmo tempo, uma compulsão, que se alimenta de si própria e das pequenas recempensas, de uma opinião agradável ou de um pequeno reconhecimento. 

Esta ocupação coloca desafios sérios e muito estimulantes à minha personalidade um tanto instrospectiva e às minhas naturais inseguranças: é preciso, de quando em quando, sair da minha casca para comunicar com os leitores, que, decidi, não hão-de adivinhar a minha timidez. É um exercício cansativo, que me surpreende sempre com uma certa vontade de fugir a meio da coisa. Depois passa e reconheço, no fim, o bem que me faz. É preciso atirar-me de cabeça, ocasionalmente, a tipologias de texto que nunca antes contemplara redigir, como o conto ou, recentemente, a crónica,  nada fácil para quem é escritora de romance, de dissertação, de artigo científico (embora há muito que não o faça, com grande pena minha) e do ocasional poema desafinado. Mas faz-me bem. Faz-me bem. 

E depois, há aquele empurrão que vem precisamente quando nos sentimos estagnados.  Afigura-se uma mudança no horizonte, que é também uma permanência: como mudar de casa, para acompanhar a família. Veremos o que muda, o que se mantém, para além da gente maravilhosa. Vamos ver também se posso acompanhá-la com uma pequena variação noutros aspectos, mas disso vos darei testemunho em breve. Para já, talvez esta seja a mudança de que necessito num momento de particular indecisão quanto à escrita... Vamos ver se este empurrão me põe por fim na trilha certa!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sim, um barco

Havia um barco
ponto ao longe no azul
brilhante
mas tu insistias que era
um barco
e eu
porque os olhos nunca
mo mostram
dizia sim, um barco
que lindo barco
Tu sonhavas-te nele
tu que não sabes velejar
eras quase
capitão
de casca de noz
eu estendida no convés
e depois o amor ao sol
O mar
devolvia-te o desejo
num refulgir
de prata
e o sol bronzeava-te
a pele
e eu também sonhava
um barco
Sim, um barco
no centro do oceano tão quieto
eu e um barco
eu, que tão pouco
sei velejar
capitã de veleiro
nem tu com a tua pele
de sol e mar
nem a tua voz
nem o teu desejo
nem nada
eu e o medo
um livro um cão
no silêncio
do grito das gaivotas
o resto só linha de horizonte
muito tempo
o tempo todo talvez
e tu dizes,
um barco é que era bom
e eu suspiro.
Sim, um barco










domingo, 16 de julho de 2017

Seja Feita a Tua Vontade, Paulo M.Morais


Evito, por princípio, opinar sobre os livros dos autores que conheço pessoalmente, em particular sobre aqueles por quem tenho estima e admiração, independentemente de ter ou não gostado do livro. Já me sucederam ambas as coisas. Não sou capaz, porém, de fugir a umas palavrinhas no fim desta leitura e, ao contrário da maior parte das opiniões que vou escrevendo, gostaria de as ter redigido no momento em que terminei, a "quente". Sabia bem o que queria dizer, não tive oportunidade e creio que as palavras vão custar-me mais a oganizar agora.

Li alguns livros do Paulo. O primeiro, do tempo do Colectivo Nau (se tiverem curosidade, vejam o que foi aqui) foi Revolução Paraíso, depois disso li Uma Parte Errada de Mim e este Seja Feita a Tua Vontade e parece-me que este texto está tão longe do primeiro que li, não em qualidade, que nunca esteve em causa, mas em estilo e tema, como o Paulo está já do escritor (e se calhar do homem) que impulsionou a Nau. É preciso que diga, antes de mais, que gostei bastante do Revolução, mas gosto mais assim. É um critério pessoal, claro, assente sobretudo no facto desta escrita me parecer também mais pessoal. 

Confesso que, dada a temática, hesitei em pegar no livro neste momento de menos ânimo. Estava curiosa, mas não o teria lido neste momento se não fosse curto e sobretudo se não conhecesse o livro anterior. Por tê-lo lido (e gostado), sei que a escrita do Paulo não é dada ao drama, mesmo quando o tema é trágico, nem à auto-comiseração, mesmo quando há razão para tristeza. Sei também que a linguagem  crua e simples, exacta, culta, atribui à narrativa uma certa leveza, não no sentido da superficialidade, mas de uma leitura escorreita, e uma emoção contida, sem excessos de caixa de Kleenex. 

É o que acontece também em Seja Feita a Tua Vontade, que acabei por ler em meia dúzia de sessões, muitas páginas de uma assentada - e juro que só fiquei com lágrimas nos olhos uma vez, não porque o episódio seja trsite, que é, mas por ser de sentimentos bonitos, de grande generosidade, que me suscitam sempre muito mais emoção. Nestas curtas páginas, o narrador coloca-se no centro desassombrado de uma relação e de uma situação complexa com o avô, antigo médico, que escolhe a sua própria morte, e disseca-as com muita clareza de espírito. A história cinge-se a um espaço e tempo limitados pela morte do avô, mas acaba por ultrapassá-lo, porque não se narra apenas o processo difícil do fim da vida na velhice, o autor vai tecendo em seu redor, uma espiral de sentimentos e dúvidas, por vezes persistentes, de rebeliões e conciliações, de referências culturais e pequenas histórias do passado e do presente, recordações com um cunho muito pessoal. Ou não.

Porque essa é a questão. Sendo uma história na primeira pessoa, acompanhada por imagens e listas em anexo, temos por quase certo que este narrador é o autor, que este é o seu avô, em busca de uma morte digna, que as recordações são suas. Vou, porém, fazer de advogado do diabo: e se não fossem? Faria diferença na forma como leriamos este livro? A meu ver, nenhuma. A leitura continuaria a parecer-nos uma espécie de vislumbre de momentos muito intímos numa relação única, e a parecer-nos verdadeiros. Porque é o que faz um autor, sobretudo quando a escrita é tão pessoal e na primeira pessoa, diluir a barreira entre a realidade e a ficção, até não se estar certo de se estar perante um texto quase biográfico ou uma fantasia, como são todas as obras de ficção. Ou como é, afinal, a nossa memória dos outros.   

terça-feira, 11 de julho de 2017

caminheira de mim

dizes-me que limpe o pó
dos dedos dos pés
me recoste na almofada
de calor e linho
e deixe sarar as feridas
de muito caminho
eu tenho medo
porque a vontade é muita
porque o corpo doi
e já andei tanto, tanto
sem sair do sítio
mas sem o chão nos pés
não descubro
a linha imaginária da vontade
e no horizonte manso
eu serei aquietada
e sim, contente
e sim, coisa nenhuma de mim
não me chames
do meio do abandono
que eu não quero ser contente
quero  os espinhos
nas palavras
desta estrada de poeira
e nuvem branca












quinta-feira, 6 de julho de 2017

O prazer de escrever por escrever


Tenho umas quantas razões para não estar em idílio perfeito com a escrita. Corrigo: com a publicação. É preciso distinguir uma coisa da outra com muita clareza: a escrita não me entristece, é uma catarse, um prazer, uma necessidade, a publicação é sempre uma incógnita, porque depende de muitos factores, da minha vontade, das decisões da editora, do mercado, das vendas, etc, etc, e traz-me tantos prazeres como dissabores. 

Os últimos livros que escrevi e publiquei, sobretudo O Ano da Dançarina, foram trabalhosos do primeiro ao último dia, um labor intenso de pesquisa, escrita, conjugação entre facto e ficção, edição, revisão, correção... Neste momento, tendo em conta os resultados mais recentes (os números, não as opiniões, que parece que não batem certo, opiniões excelentes e números que... enfim), tenho mais perguntas do que respostas. Estou consciente de que esta honestidade pode não me favorecer, mas há momentos em que é, ao menos, libertadora. Não vou fingir uma indiferença que não tenho nem entendo, porque, como tenho dito muitas vezes, quem escreve pode fazê-lo só para si, mas quem publica não. Quem publica, quer ser lido (muito lido, muito, muito lido) e ter quem goste e, porque não, quem deteste o seu trabalho. Logo, tanto as opiniões como o número de leitores que adquirem e/ou leem o livro importa. Representam o sucesso do romance e do autor e muitas vezes o seu futuro. 

Dito isto, o romance que estou a escrever neste momento sabe-me ao paraíso. Há muitas razões:

Primeira, não requer nenhuma pesquisa. Os meus livros publicados são todos de época, históricos, se quiserem. Sou exigente comigo própria na conjugação da História com a história, para que tudo seja fluido e nada chatinho, para que nunca seja uma lição, mas ainda assim se descubra a época, para que o retrato seja fiel, cheio de detalhes engraçados, sem ser doutrinário, e isso dá uma trabalheira inimaginável. Muito mais difícil, acreditem, do que espetar com os factos nas páginas, em parágrafos e parágrafos que parecem tirados ds compêndios de História, o que é uma tentação a que nuca cedo. Este romance, porém, não é de época e, se preciso que um ou outro facto bata certo com o que digo, é coisa mínima, mais do lugar do que do tempo. Coisa fácil, portanto, facílima. e de grande liberdade. Tanta, tanta, que até sou capaz de escrever a qualquer hora do dia, eu que há anos só sou capaz de fazê-lo de manhã, com a cabeça fresca! 

Segunda, porque escrevo o que me apetece. Tenho uma ideia geral do que será esta história, de quem são as personagens e o que fizeram ou farão, mas ela flui como bem quer, sem uma linha cronológica, sem nenhuma obrigação. Não tenho um esquema ou plano - ao contrário do anterior, que exigiu uma tabela detalhada - o que quer dizer que a qualquer momento posso ser surpreendida por qualquer das personagens. Talvez a coisa terrível tenha sido feita, não pela personagem a quem agora a atribuo, mas por outra. Talvez a minha protagonista fique em Portugal, talvez não. Sei lá. Nem tenho ainda um fim definido, nem estou certa do que sucederá no próximo capítulo. Nem sei se a terminarei, mas uma coisa sei: será curto, menos de 200 páginas. Se calhar. menos de 150. Nisso, estou determinada. 

Terceira, porque não faço ideia do que lhe farei quando... se o terminar, porque não sinto essa obrigação. Não sei se tentarei a minha actual editora, que me tem como escritora de históricos, se o colocarei num envelope para um prémio qualquer (pelo desafio, que me importa, sei bem como é isto dos prémios), se o deixarei bem quietinho no seu ficheiro, bem escondidinho, se o imprimirei apenas para os amigos, que ão uns queridos e querem sempre ler o que vou fazendo. As dúvidas costumam ser: será que a editora o quer? Será que, se não  quiser, encontrarei outra interessada? Desta vez, pouco me importa. Uma parte da indiferença poderá advir de um certo desapontamento, mas a maior parte de ser um livro diferente dos anteriores e não ter expectativas para ele, por não ser provável à partida, que a editora o queira. Deva ficar com pena? Pois. Sei lá.  Entretanto, dei-lhe o título provisório (ou não) de Limões na Madrugada, por causa de um poema que escrevi há tempos e está por aqui no blogue, poema medíocre mas que deixou semente.  

São motivos mais do que suficientes para que escrever este romance, seja um prazer, no sentido em que a liberdade absoluta é um prazer.